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terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

A GRAÇA DA MÚSICA EM ANIMAÇÃO

Para a minha geração, bem como a de meu pai e a de meu filho, os seriados de animação da televisão (ou das matinés de cinema, no caso de meu pai) são responsáveis por uma parte importante das memórias musicais da infância. Para meu pai, era a música que acompanhava cada passo das loucas perseguições protagonizadas por Tom e Jerry, (quando comecei a estudar o assunto, vi que os antigos cartoons da Metro, Disney e Warner são verdadeiros modelos de composição musical para cinema, através de uma técnica que veio a ser conhecida como mickeymousing). A música destas séries misturava composições originais com trechos de canções populares e de musica erudita (que muitas vezes incluía o repertório de opera – talvez você se lembre do Pernalonga alisando a careca de Hortelino ao som da abertura d’O Barbeiro de Sevilha). Eu, além de apreciar o mesmo repertório cartunesco de meu pai (que a TV, felizmente, não parou de reprisar), adorava a música de abertura de alguns dos primeiros animes que chegaram ao Brasil: Sawamu e Speed Racer (ouvindo-as hoje, parece-me que estas são muito inferiores à música da época de ouro da Warner – apesar dos evidentes méritos de refrões grudentos como “go speed racer go” e “ele se chamava o demolidor”).

Quanto a meu filho, basta dizer que uma das nossas brincadeiras musicais favoritas consiste em ele reconhecer de onde vem um trecho melódico que eu cantarolo, e freqüentemente são trechos advindos de séries de animação - como a canção de abertura d’ “Os Backyardigans”, animação em 3D veiculada no Brasil pelo canal a cabo Discovery Kids. Esta série canadense, aliás, tem uma direção musical muito inteligente, que aproxima-se de gêneros como o teatro musical (como “Cats”) e conseqüentemente do musical de cinema (como “Cantando na chuva”): a cada episódio, os personagens interpretam um repertório de canções criadas especialmente, sempre dentro de um estilo ou movimento da música popular. Assim, temos episódios em que a música é composta exclusivamente por bossa nova, ou por reggae, ou por disco, ou rock independente, ou polca, e assim por diante. Além disso, a música é bem gravada e muito bem arranjada. Se por um lado realizar a música da série deve ser um tremendo trabalho de produção, o 3D em si não é complexo: os cenários são despojados e repetidos, raramente aparecem personagens novos (os Backyardigans quase sempre aparecem em amplos cenários vazios, como desertos) e os personagens são todos desenhados de maneira a simplificar o lip sync (com bicos, por exemplo). A série tem muitos méritos, mas os Backyardigans, pelo menos para o meu senso de humor, não são exatamente hilariantes musicalmente. Há, no seriado, relativamente poucas piadas musicais, apesar de a música, volto a dizer, soar muito bem e ser muito criativa.

Piadas musicais funcionam muito bem em outros casos de animação direcionada ao publico infantil, mas é claro que não podemos generalizar e imaginar que toda a animação para crianças deva ter músicas engraçadas ou sequer ser engraçada o tempo todo; não podemos esquecer do tom mais épico da animação japonesa e nem dos Grandes Momentos Trágicos da Animação, como as mortes de Mufasa e da mãe do Bambi e todos os episódios da versão em anime do Pinóquio, que, tenho certeza, contribuiu para traumatizar milhares de crianças.
De qualquer maneira, eu sempre me interessei pelo humor na música: eu sou fã de “palhaçadas musicais” como as protagonizadas por Frank Zappa, Devo e Mutantes, e talvez uma das minhas coisas preferidas de todos os tempos seja os Muppets em Mahna Mahna (se você não tem a menor idéia do que é isso, não perca em http://www.youtube.com/watch?v=gRRFfg2Guq4). Como tenho colaborado com espetáculos de teatro infantil, faz parte de meu trabalho encontrar um jeito de fazer graça com música. Sempre me pergunto se é possível sequer se falar de uma piada musical. E se piadas musicais são possíveis, como será que elas funcionam?

Uma pista pode vir do que já foi chamado por um musicólogo como funções primárias e secundárias da música. Peço perdão pelo uso de termos pomposos, mas veremos que a idéia é muito simples: trata-se simplesmente de tirar uma música do seu contexto original. É uma maneira comum de obter um resultado engraçado, mas obviamente a piada funciona melhor quando a platéia compreende a sobreposição de significados, ou em outras palavras, percebe a diferença entre o contexto original e o novo. A platéia simplesmente deve conhecer qual foi a função primária para captar a intenção cômica da utilização secundária (é fácil generalizar esse conceito e perceber que ele também atua na expressão de uma ironia ou do sarcasmo).

É o caso do recente “Monstros versus Alienígenas”, do estúdio Dreamworks, em sua utilização das célebres 5 notas criadas por John Williams para “Contatos imediatos do terceiro grau”, dirigido por Steven Spielberg. Pule o parágrafo abaixo se você não gosta de spoilers.

É um dos pontos altos do filme, pelo menos em termos de comicidade. Alienígenas estão invadindo a Terra. Um artefato gigantesco pousa em uma região erma dos Estados Unidos. O presidente do país, uma mistura de Ronaldo Esper com George Bush resolve tomar a dianteira da situação, e, operando um teclado Yamaha DX7, tenta comunicar-se com os visitantes através da música. Ele escolhe a melodia de “Contatos”, com resultado pífio. O silêncio da nave visitante prenuncia o pior. O presidente, sentindo que precisa levar sua performance a níveis mais ambiciosos, lembra-se de outro tema musical do cinema e, em meio a uma engraçadíssima performance de dança, toca o tema de “Tira da pesada” no teclado. Aí é que os aliens ficam descontrolados de verdade, e o ataque começa.
Este é um bom exemplo de piada musical que só funciona se conhecermos a função primária da música. Muitos dos que assistiram os três filmes sabem que as duas melodias tinham caráter completamente diferente em suas utilizações iniciais: misterioso, quase místico em “Contatos” e urbano e descolado em “Tira”.

Sabe-se que Carl Stalling, o compositor dos Looney Tunes da Warner fazia piadas através do uso intenso de canções populares dos anos 40, até porque a própria Warner era detentora de direitos de publicação de centenas de canções da época. Esse repertório dificilmente está presente na memória do espectador brasileiro da atualidade, e o resultado é que muitas das intenções cômicas de Stalling provavelmente se perdem. Certamente o mesmo vai acontecer com o espectador de “MvA” de 2069.

Mas há outro tipo de humor musical, e se você assistir o vídeo do YouTube recomendado acima, vai entender do que estou falando. Ali também há referências (a cada intervenção do monstrinho), mas você pode não reconhecer nenhuma delas e ainda assim dar risada com o vídeo. Nesse caso, somos tentados a afirmar que há algo intrinsecamente engraçado à música. Ao menos, deve haver algo puramente musical que colabora com um roteiro e personagens que por si sós já são muito engraçados. Para tentar explicar o humor de “Mahna mahna” talvez precisemos procurar uma compreensão mais universal da música, que conta não com o nosso conhecimento prévio desta ou daquela melodia, mas com o funcionamento próprio do tempo musical, suas típicas inflexões, desenvolvimentos e resoluções. Nesse ponto abrem-se questões muito complexas da significação musical, que eu deixo, por enquanto, para eruditos do assunto.

GUILHERME MAXIMIANO
, músico, consultor em gestão, é professor do curso de produção musical da Anhembi Morumbi. Administrador pela FEA (USP), especialista em música pelo IMT (SP), é mestre em música pela ECA (USP). Desde 1998 realiza programas de treinamento em empresas, e desde 2001 desenvolve trilhas sonoras para peças de teatro e propaganda. Ministra ainda oficinas de música para atores, educadores e estudantes.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Ciclo de entrevistas - Jonas Brandão - Split Filmes

Dando continuidade ao nosso ciclo de entrevistas, hoje temos a grata satisfação de publicar a entrevista com Jonas Brandão da Split Filmes.

Jonas Brandão graduou-se em Imagem e Som pela UFSCar. Em 2007 participou do programa Hothouse 4, da National Film Board of Canada. Escreveu e dirigiu dois curtas animados, "Balloons" (NFB - 2007) e "Um lugar comum" (UFSCar, 2009). Atualmente trabalha como animador freelancer, é professor da Universidade Anhembi-Morumbi e desenvolve projetos pessoais em sua empresa, Split Filmes.

Que leitura você faz hoje da animação, do 3D e dos efeitos especiais no mercado brasileiro?
Hoje já podemos dizer que existe um mercado de animação. Há cada vez mais produtoras especializadas em animação, cursos específicos e desenvolvimento e financiamento de conteúdos para animação. Vivemos no melhor momento da animação na história do Brasil, e há a ampla necessidade de mão de obra especializada no mercado. Isso vale tanto para os profissionais de animação tradicional, stop motion, quanto para os profissionais de Cgi.

Como a formação acadêmica pode ajudar a ingressar nesse mercado?
A formação acadêmica é importante no sentido de que há poucas pessoas realmente qualificadas e boas no mercado. Há muitos projetos de séries de TV e longas em desenvolvimento, e como são atividades que envolvem uma grande quantidade pessoas envolvidas, a maior dificuldade é encontrar pessoas realmente qualificadas para ocuparem as funções fundamentais no processo de animação, ainda mais com tantos projetos rolando ao mesmo tempo. O que conta, realmente, é o talento individual e a quantidade de horas de vôo do profissional. A formação acadêmica não é uma garantia, mas é uma chance que o indivíduo tem de experimentar e aprender animação, além de formar um portifólio básico para entrar no mercado. Acho muito importante estudar animação. É uma forma de estimular a produção individual, o ganho de repertório e a entrada no mercado.

Comente sobre algum caso de sucesso de animação, 3D aqui no Brasil.
Um caso que eu posso citar é o filme Para Chegar Até a Lua, de José Guillermo Hiertz. Foi o TCC dele na faculdade de cinema. Ele nunca tinha aberto um software 3d até chegar no último ano. Aprendeu a usar o maya, ganhou um edital do MinC e fez quase que sozinho o filme, num prazo de dois anos de trabalho. Eu acho que é um filme com uma qualidade técnica bem alta, ainda mais por ter sido feita em 2005, por alguém que nunca tinha animado nem mexido em 3D. Ganhou mais de vinte festivais por aí. Link para visualizar o filme Para Chegar Até a Lua.

Quais são as suas principais fontes de inspiração?
Basicamente os livros e os filmes que eu topo por aí. Muitas vezes amigos e pessoas próximas também.

Qual a sua sugestão para quem quer se profissionalizar nessa área?
Acho que todo mundo tem que desenhar muito. Mesmo quem quer entrar na área do 3d. E treinar a exaustão. Honestamente, os melhores animadores que eu conheço desenham o dia todo, tanto a trabalho quanto por diversão. E estudam muito a composição dos movimentos e o timing na natureza. Como a animação é uma atividade que exige um monte de conhecimentos de naturezas diferentes da parte do executor, a dedicação e estudo são fundamentais.

Agradecemos a participação do Jonas Brandão no nosso ciclo de entrevistas.

sábado, 11 de julho de 2009

Podcast animado - Conversa com Arnaldo Galvão - ABCA

PODCAST ANIMADO
Acompanhe a conversa que tive com Arnaldo Galvão - Diretor comercial da ABCA.
Esse encontro aconteceu no dia 23/06, nas dependências do Estúdio 44Toons.
Onde também tive a oportunidade de conversar com o Alê Machado.

OBS.: Como não possuo gravador profissional, estou fazendo uso do mic do meu MP3.
Arquivo em mp3 - Duração 00:23:41 - Tamanho 11,3 mb

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Podcast animado - Bate-papo com Ale Machado - 44Toons

PODCAST ANIMADO
Aprecie o bate-papo descontraído com Ale Machado.
Essa conversa aconteceu no dia 23/06, nas dependências da 44Toons.
Um ambiente super descolado e bacana, onde tem muita gente de talento trabalhando em prol da animação no Brasil.
Arquivo em mp3 - Duração 00:11:27 - Tamanho 5,47 mb

terça-feira, 3 de março de 2009

Ciclo de entrevistas - Marcelo Ricardo Ortiz - Melies Escola de cinema 3D e animação


Marcelo Ricardo Ortiz
Animador e Diretor formado pela Faculdade de Belas Artes de SP, Vancouver Film School e Animation Mentor participou de vários festivais internacionais recebendo premiações em vários deles. Trabalha na produtora MrSolo, criando e dirigindo animações 3D para várias agências de publicidade, canais de TV, Internet e outros tipos de mídia. Já atendeu clientes como Flamma, Warnner Brothers, Pepsi, WolksWagen, FIAT, Antarctica, Ponto Frio, Nestlé, SBT, Brahma, Mattel, Coca Cola, entre outras. Um dos fundadores da Melies Escola de Cinema e Animação atualmente ocupa o cargo de diretor de animação lecionando em vários cursos.Também faz parte da equipe do site 3d4all.org, o maior portal sobre 3D do Brasil.

Que leitura você faz hoje da animação, do 3D e dos efeitos especiais no mercado brasileiro?
Hoje a animação no Brasil já é um mercado sólido e que como no resto do mundo, não para de crescer. Com o avanço da tecnologia, novos mercado estão surgindo todos os dias exigindo constantemente novos artistas de animação.

É cada vez mais comum encontrarmos telas de plasma nas lojas de shopping-centers, estações de metrô, estádios de eventos e em diversos lugares substituindo os antigos cartazes. Se você pensar que em cada uma dessas telas, um novo conteúdo praticamente exclusivo deve ser produzido, fica fácil de entender o porquê de tanto crescimento da área de animação.

Além disso, mercados que antigamente eram exclusivos do exterior como Games, Séries Animadas e Longas de Animação, hoje estão se consolidando dentro do nosso país. Estamos só no começo e podem acreditar, no caminho certo. Nossa criatividade e talento já são reconhecidos o mundo afora abrindo cada vez mais portas para co-produções entre estúdios de fora e nacionais.

Como a formação acadêmica pode ajudar a ingressar nesse mercado?
Com o avanço desse mercado o fator “qualidade” está sendo cada vez mais exigido pelas produtoras de animação em 3D. Antigamente, qualquer animação servia, uma vez que o público não tinha nenhuma referência sobre essa nova técnica. Com as novas produções como Procurando Nemo, Shrek, Bolt e outros, esse público está aprendendo a diferenciar um bom trabalho de um trabalho mais ou menos.

Acredito que nessa hora a formação acadêmica seja fundamental. Separar “apertadores de botão” de “artistas” se tornou essencial para o sucesso na carreira. As escolas também estão evoluindo e focando seus cursos em conceitos e não em softwares. Os centros de treinamento estão cada vez mais perdendo espaço para as “escolas de artes” que preparam seus alunos com fundamentos artísticos, indispensáveis para a evolução artística.

O que antes levava 5 anos para se aprender sozinho, hoje é perfeitamente viável de se aprender em uma escola em 1 ou 2 anos, dependendo do esforço e talento do aluno em questão. Não tenho dúvida que a formação acadêmica, apesar de não ser fundamental para a entrada no mercado acaba se tornando quase que indispensável para a evolução na carreira.

Comente sobre algum caso de sucesso de animação, 3D aqui no Brasil.
O mais recente com certeza é o caso do longa de animação “Grilo Feliz 2”. Todo feito no Brasil, é um longa com excelente qualidade (para o valor e tempo investido) que além de abrir as portas para novos longas, ainda se tornou um dos líderes de bilheteria no nosso país.

Exemplos como esse serão cada vez mais comuns, temos a qualidade, criatividade, vontade e mão de obra suficiente para evoluirmos muito como o resto do mundo.

Quais são as suas principais fontes de inspiração?
Hoje em dia, a cada novo filme, uma nova inspiração. A qualidade não para de subir, junto com ela novas idéias, desejos e inspirações. Gosto muito dos desenhos antigos da Disney, das animações clássicas da Dreamworks e de filmes com bons efeitos visuais entre, eles o meu preferido, Guerra nas Estrelas.

Qual a sua sugestão para quem quer se profissionalizar nessa área?
Estudar, estudar e estudar. Não adianta ser “fera” no computador, esse é um pedaço pequeno e que deve vir por último.
Grande parte dos esforços deve se concentrar no que nós chamamos de Background. Habilidades para desenhar, composição, estudo de cores, criatividade, fotografia e tudo que possa somar na famosa “habilidade artística”.
Desenhar não é fundamental, existem MUITOS artistas que não desenham bem, mas isso não é desculpa para estudar desenho e tentar melhorar o máximo possível. Desenho como a maioria das coisas, pode ser aprendido com prática e esforço.
Se você puder, procure uma escola. Geralmente ela oferece um caminho mais curto e direcionado para a formação dos artistas.
Os grandes truques para saber se a escola está qualificada ou não são; Visitá-la (certifique-se de sua estrutura e professores); Converse com os alunos que estudam ou estudaram nessa escola (verifique seu grau de contentamento e satisfação com essa escola) e principalmente; Avalie o trabalho desses alunos (compare sua qualidade final com o nível que você deseja chegar).
Com essas informações, você poderá escolher a escola que melhor se encaixa para suas ambições.

Agradecemos a participação do Marcelo.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Ciclo de entrevistas - Prof. Maurício Mazza - Anhembi Morumbi


Prof. Maurício Mazza
Eu comecei brincando com filmadora Super-8 na década de 1980. Depois conheci a computação gráfica em 1986.Continuei brincando até 1988 quando comecei a trabalhar com vinhetas corporativas, multimídia, internet, animação, jogos eletrônicos e trabalhar em alguns estúdios na área de publicidade. Sou formado em Ciência da Computação, pós graduado em Design de Hipermídia e atualmente sou mestrando em Design com dissertação sobre animação digital de personagens.

Que leitura você faz hoje da animação, do 3D e dos efeitos especiais no mercado brasileiro?
Hoje o campo da Animação está em crescimento no mundo todo. E apesar de todas as dificuldades, um dos lugares que a animação mais cresce no mundo é o Brasil. As ferramentas digitais, o universo 3D, e a internet são ferramentas que facilitaram muito o ingresso de artistas, estudantes, profissionais ou mesmo apaixonados pelo campo da animação. Os brasileiros sempre foram famosos pela sua criatividade, pela capacidade de oferecer soluções com o mínimo de recursos e este é um ponto a ser considerado no campo da animação. A evolução das ferramentas digitais para animação e a internet possibilitaram que qualquer pessoa pudesse ser um amador ou estudar para se tornar um profissional.É importante ressaltar que as ferramentas digitais são apenas ferramentas. A linguagem, os conceitos e as técnicas da animação clássica ainda são o grande diferencial para quem quer ingressar nessa área.O mercado brasileiro de animação já tem bastante história. Existem filmes importantes e profissionais com destaque internacional. Mas ainda não existe um plano de carreira, sindicato, etc. Na verdade o mercado brasileiro ainda não oferece segurança e estabilidade para os profissionais. A profissão ainda é marginalizada no sentido legal. Mas aos poucos este cenário está mudando. Com o surgimento de formações acadêmicas e incentivos governamentais, a tendência é o mercado se solidificar.A grande maioria de trabalhos expressivos na área aqui no Brasil são no campo da publicidade. Aos poucos alguns estúdios vão se destacando com curta-metragens em festivais, filmes para DVD, séries para televisão e efeitos especiais para o cinema.Alguns fatores que podem alavancar muito essa área é a entrada da Ubisoft no Brasil e incentivos como da Petrobrás, Ministério da Cultura e AnimaTV.Acredito que grandes produções serão feitas e bem sucedidas no Brasil.


Como a formação acadêmica pode ajudar a ingressar nesse mercado?
A grande diferença da formação acadêmica, se faz entre a relação das ferramentas e os conceitos.Dominar a ferramenta é importante, mas só com isso o profissional fica limitado. A animação requer muito planejamento e esse planejamento envolve muitas outras áreas: a observação, a pesquisa teórica e iconográfica, a escrita, o desenho, a narrativa, o olhar, a relação com o som, a relação com o teatro e cinema, entre outros.Além disso, a academia tem o caráter de experimentalismo, de vanguarda. A formação acadêmica exercita o pensar, relacionar a animação com as questões culturais e sociais, misturar técnicas, desenvolver projetos inter e transdisciplinares.Nas minhas experiências profissionais, várias vezes me deparei com limites projetuais encontrados em equipes onde participavam profissionais sem formação acadêmica.


Comente sobre algum caso de sucesso de animação, 3D aqui no Brasil.
Depende o que você quer dizer com sucesso. Estúdios como Casablanca Animation, Vetor Zero, Digital 21, SeagulssFly, entre outros têm vários trabalhos publicitários premiados e reconhecidos no mundo todo. Alguns nomes como Fausto De Martini, Mario Ucci, Krishnamurti Costa, Leo Santos e Alex Oliver, são profissionais que começaram de baixo trabalhando aqui no Brasil, principalmente na área de publicidade e hoje estão trabalhando em grandes empresas que produzem efeitos especiais para indústria de games e cinema. O Fausto por exemplo é coordenador do setor de modelagem da Blizzard, umas das empresas mais ricas da área de games. Ele começou de baixo, subindo degrau por degrau, traçando seu caminho ao longo de aproximadamente 10 anos e hoje é uma referência mundial.No final de 2008 tivemos o lançamento do Grilo Feliz de Glaubercy Rocha. Se não me engano, é o segundo longa brasileiro produzido totalmente em animação 3D para o cinema. O primeiro foi Cassiopéia, de Clóvis Vieira, que saiu antes ou simultaneamente com Toy Story. Sem falar no Carlos Saldanha, diretor da Era do Gelo 2, que é brasileiro mas construiu sua carreira desde o início nos Estados Unidos.


Quais são as suas principais fontes de inspiração?
Animação é uma área tão abrangente, que praticamente tudo pode servir como inspiração. Depende do caso, do filme, da cena, do personagem. Por exemplo, último projeto em que eu trabalhei, que será lançado este ano, os personagens são em sua maioria peixes e crustáceos. Nós convivemos com aquários para observar os movimentos dos animais e encontrar soluções para as cenas.Como o autor Ed Hooks afirma, a natureza é um grande livro aberto com muitos ensinamentos, basta ler com atenção. Após observar a natureza e de representar em frente ao espelho ou câmera de vídeo, sempre recorro principalmente aos filmes de WaltDisney e Walter Lantz . Estes ja animaram praticamente tudo que se possa imaginar de uma forma bem divertida e bem resolvida no meu entendimento. Mas não é só. A animação tem história expressiva em muitas partes do mundo em épocas diferentes. A constante ampliação de repertório é mais um elemento estimulado pela formação acadêmica.


Qual a sua sugestão para quem quer se profissionalizar nessa área?
Muitas pessoas e alunos pensam que trabalhar com animação digital é simples e fácil. Se iludem que o computador vai resolver tudo. Como eu disse, o computador e a computação gráfica são apenas ferramentas. Para entrar nessa área, é necessário muito estudo e muita dedicação. Se falarmos apenas das ferramentas digitais, estas ja exigem muita dedicação, vários fins de semana e noites em claro para serem dominadas. Somando ao estudo da linguagem da animação, das técnicas, dos princípios e conceitos, da ilusão e percepção do movimento e da linguagem cinematográfica, ainda é necessário um tempo para adquirir experiência. Ou seja, não é da noite para o dia que isso vai acontecer. Como é uma área em crescimento, a concorrência também é grande. Desenvolver animação é bem diferente de assistir, assim como desenvolver jogos digitais é bem diferente de jogar. O computador faz muitas coisas maravilhosas, mas animação ele ainda não faz. Alguns autodidatas se iludem, pois o computador gera a ilusão do movimento. Mas movimento não é animação. Animação basicamente é o sentido e a emoção do movimento, e isso ainda depende do talento humano.
Agradecemos a contribuição do Prof. Maurício Mazza.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Ciclo de entrevistas - Prof. Sérgio Nesteriuk - Anhembi Morumbi

Prof. Sérgio Nesteriuk
Coordenador do Curso de Design de Animação
Universidade Anhembi Morumbi

Que leitura você faz hoje da animação, do 3D e dos efeitos especiais no mercado brasileiro?
A animação foi, sem sombra de dúvidas, um dos principais produtos culturais do século passado. É difícil encontrarmos alguém conhecido que não tenha tido qualquer tipo de contato com a animação. Desde década de 30, com a criação dos grandes estúdios e, posteriormente, na década de 40, com a criação das primeiras séries para TV, a animação vem povoando o imaginário coletivo das últimas gerações ao redor do mundo. No Brasil, desde o primeiro curta-metragem de animação realizado em 1917, a animação nacional tem ganhado grande destaque, sobretudo junto à publicidade e a produção autoral de curtas-metragens. Atualmente o grande desafio é aumentar a produção e a divulgação de séries e de longas-metragens. O governo, e a esfera pública de uma maneira geral, vem percebendo a importância do setor da animação para diversos outros setores do país, como a cultura e a economia. A animação brasileira vai ter, em minha opinião, um crescimento como nunca antes visto e ganhará grande projeção - nacional e internacional - em pouco tempo. Iniciativas como o Programa Nacional para Desenvolvimento da Animação Brasileira, AnimaTV, AnimaSur, o projeto de lei de cotas de animação brasileira na TV (1821/03), a portaria interministerial 796 entre o MCT e o Minc, o Funcine de R$ 50 milhões da Fundação Padre Anchieta, novos concursos e editais específicos etc vão levar, acredito, o Brasil ao nível das grandes potencias mundiais na área.
Em relação ao 3D, a animação, desde a chegada dos computadores ao seu universo, abriu novas e interessantes possibilidades de produção, distribuição e de recepção. Além disso, não devemos esquecer a velocidade com que a tecnologia evolui e se aperfeiçoa, como podemos tão bem perceber em termos de processamento, por exemplo.Em um primeiro momento, o computador possibilitou a criação de novas técnicas e recursos assim como facilitou outras tantas difíceis de serem realizadas de forma analógica. Assim, foi possível criar coisas novas e produzir outras tantas em uma velocidade maior, com qualidade igual ou até mesmo superior ao que se produzia anteriormente. Em um segundo momento, o computador passou a ser não apenas o suporte de produção dessas animações, mas também o de “consumo” dessas animações. É o caso, por exemplo, dos games – que, grosso modo, podem ser entendidos como animações interativas – e das novas tecnologias digitais, como observamos em aparelhos de celular, sites com interfaces animadas, animações interativas etc.
Em termos de linguagem vejo uma cisão clara entre duas linhas: uma que representa as animações mais estilizadas ou “cartoonizadas”, que não se preocupam com uma representação mais precisa do “real”, e outra que é, de certa maneira, oposta à primeira com a busca de uma representação mais próxima ao que se chama de “real”. Considero as duas formas interessantes e complementares.

Como a formação acadêmica pode ajudar a ingressar nesse mercado?
Com o aumento na produção de animações há, inevitavelmente, a necessidade do aumento de sua mão-de-obra produtiva. Claro que as pessoas podem aprender de maneira autodidata e se aperfeiçoar com a prática cotidiana. Todavia, entendo que a formação acadêmica pode auxiliar na medida em que, quando bem articulada, proporciona uma complementação fundamental na formação deste futuro profissional. Não podemos restringir o conceito de animação exclusivamente ao seu aspecto mais “técnico”. Mesmo para aquele que nunca pretende realizar seu próprio projeto e opte por se restringir ao uso de softwares, é fundamental conhecer aspectos diversos ligados às áreas da comunicação, das artes e do design, que estabelecem constantes interfaces com a animação. Costumo dizer que a animação, nesse sentido, não é diferente de qualquer outra área criativa: não existem escritores, cineastas, pintores, designers, músicos, publicitários e outros tantos profissionais que lidam com criação que não tenham repertório das principais referências de suas áreas e um bom conhecimento de cultura. Além disso, quando não se tem este repertório sempre se corre o risco de “reinventar a roda”, isto é, estar produzindo algo que já foi feito de forma muito parecida ou idêntica anteriormente. É sempre importante não perdermos de horizonte a própria origem do termo “animação”, que vem do latim anima e que significa dar vida a algo ou alguma coisa. Isso significa que fazer algo se mexer na tela é apenas uma parte da animação e não toda ela. Com o avanço da tecnologia e uma maior democratização dos meios de produção é possível que qualquer pessoa interessada consiga hoje, com algum empenho e dedicação, fazer sua própria animação. Entretanto nem todo mundo que faz uma animação consegue fazer uma boa animação, e eu acho que essa diferença está justamente na qualidade da formação que este animador vai ter – daí a importância da formação acadêmica.
Comente sobre algum caso de sucesso de animação, 3D aqui no Brasil.
Gosto sempre de pensar no Cassiopéia do Clóvis Vieira – cuja história você já contou no seu blog. Para mim é um belo exemplo, um caso claro de superação em torno de um sonho. Acho que todos os animadores deveriam conhecer melhor a história deste filme e usá-la de inspiração para suas próprias produções. Mesmo que finalizada no final de 1996, acho que a lição vale para sempre. Se formos ver é o mesmo espírito que norteou a produção de outras animações mais atuais, como o “Vida Maria” do Márcio Ramos super premiado no Anima Mundi em 2007. No âmbito comercial, temos diversas produtoras com cases de sucesso como a Casablanca, Mixer, Vetor Zero entre outras tantas, normalmente localizadas nos grandes centros comerciais do país. A diferença neste caso é que se tem uma grande estrutura de apoio e uma equipe qualificada e talentosa por trás das produções.
Quais são as suas principais fontes de inspiração?
Ao longo do tempo procurei estudar e acumular o maior repertório crítico e estético possível. Assim, criei um repertório próprio e certos valores daquilo que considero possui maior qualidade e/ou interesse para mim. Particularmente, acho importante não ficar preso ao campo da animação, pois, como disse, acho que animação dialoga diretamente com outras tantas áreas das artes, da comunicação, do design e da cultura de uma maneira geral. Pintura, escultura, teatro, dança literatura, cinema, enfim, podemos (e devemos) tirar referências de diversas outras áreas. Particularmente em animação, gosto bastante dos trabalhos do National Film Board do Canadá, do leste-europeu e, mais recentemente, da Gobelins (França). Mas sempre procuro ver coisas novas e constantemente as pessoas me mostram coisas que eu não conhecia e que acabo gostando também.

Qual a sua sugestão para quem quer se profissionalizar nessa área?
Tenho três sugestões principais: estudar sempre, não ter pressa em ser reconhecido e desenvolver um projeto próprio. Estudar, pelas razões que já apontei na segunda pergunta. Além disso, quanto mais a pessoa estuda mais ela aprender que sempre tem mais a aprender. A segunda sugestão é não ter pressa para se tornar reconhecido; isto não significa esperar sentado por um “milagre”. Deve-se estudar, trabalhar duro e acreditar no seu trabalho e na sua capacidade. Não se deve desanimar ou desistir diante de respostas negativas ou de dificuldades - nem sempre o caminho mais curto é o melhor caminho. Se você leva a sério o que faz e se o seu trabalho tiver qualidade, um dia, mais cedo ou mais tarde, a sua vez vai chegar.Por fim, acredito que sempre podemos aprender bastante com nossos próprios trabalhos, pois, além da autocrítica, muitas vezes, possuem características e dificuldades diferenciadas, que nos ensinam bastante sobre inúmeras coisas. Isso na Universidade é o que costuma acontecer com os diversos projetos que realizamos, principalmente com o Trabalho de Conclusão de Curso (TCC). É preciso encarar o primeiro projeto próprio como uma grande vitrina, aquilo que vai ter maior peso no seu portfólio. Um projeto não é sinônimo de um monte de trabalhos agrupados; é algo bem maior, com uma proposta clara e bem definida, onde se pode perceber a mão do animador em todas as etapas. A título de exemplo, não é uma coletânea de objetos modelados – que também deve fazer parte do portfólio – mas um curta-metragem, por exemplo, uma história com começo, meio e fim e em que personagens, ambientes e ações interagem na formação de um todo maior que a pura soma das partes. Por isso mesmo este projeto deve ser pensado como um grande investimento, pois irá consumir tempo e recursos próprios. Além disso é importante lembrar que é algo que irá te seguir para sempre. Não importa qual seja seu futuro, este e outros projetos sempre o irão acompanhar e por isso mesmo têm que representar todo o seu potencial e capacidade.
Agradecemos imensamente o Prof. Sérgio Nesteriuk pelas Informações.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Ciclo de entrevistas












Nosso objetivo primordial, é trazer informação consistente e proveitosa para todos que por ventura, cheguem até esse blog.

Estamos em contato com profissionais que se dedicam ao Mundo do 3D, da animação, das Artes, do Cinema, aqui no Brasil e possuem bagagem para nos orientar sobre esse universo que está deixando de ser paralelo ao nosso.

O ciclo de entrevistas será executado da seguinte forma:
Serão repassadas pessoalmente, por cel, por e-mail, por sinal de fumaça, e/ou, etc...as 5 questões abaixo:

1 - Que leitura você faz hoje da animação, do 3D e dos efeitos especiais no mercado brasileiro?
2 - Como a formação acadêmica pode ajudar a ingressar nesse mercado?
3 - Comente sobre algum caso de sucesso de animação, 3D aqui no Brasil.
5 - Quais são as suas principais fontes de inspiração?
5 - Qual a sua sugestão para quem quer se profissionalizar nessa área?


Iremos disponibilizar as respostas e uma breve descrição de quem está respondendo.